Sombra Jungiana

Se me mede por teu mal
Ou por falhas que cometeste
Não sei ser maior que tal
Sou apenas mero este

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Perceba não há nenhuma verdade
Nos estranhos, diversos, tons de cinza
Do que uns chamam realidade
Vê-se logo não haver sanidade
Na extensa, confusa, longa teia
Desta forma, não, creia na verdade

Se impossível a venda, vale a pena?
Servirá a segregação, ao menos?
Vende-se ao nicho criado em cena
Invadimos idéias por antenas
Ao grupo oposto dá-se argumentos
Assim como ao que este condena

Está criada originalidade
Pra cada um, uma realidade

Estige

Senta-se Têmis cruzando o Estige
Par de moedas ao invés de venda
Seguiu o fácil que, do erro, efígie
Tomando uma posição na contenda

“Há justiça?”, pergunta-se a Esfinge
Em algum livro em alguma lenda
Enquanto a verdade sangue lhe tinge
Cresce sobre o túmulo verde renda

Resta-nos a crença que haja milagre
E abata a iluminação divina
O pecado vil então se deflagre
Impedindo o que parece ser sina

E neste ocaso segurem-se à calma
Tenham piedade de nossa alma

Da confiança, da mentira e da verdade

Entre as menores na menor cidade
Trabalhava um único coveiro
Tão velho que já nem contava idade
Mas era ainda da morte o porteiro

Na pá viu o remo do barqueiro
Ali findou sua exclusividade
Não lhe acenderam nem o candeeiro
“quem no lugar?”, afligia o abade

Ninguém morria, nem ninguém lhe enterrava
Ficou branco e roxo, mas lá estava
Quem morresse, fosse pr’outro lugar

O corpo inchou, fedeu, mas lá estava
Nem por cristo, ninguém lhe enterrava
Nada nunca floresceu no lugar.

Talvez insano, adotei defeitos
Que nunca estiveram em minhas mãos
Sem medir danos, insisti no pleito
Grandes agruras, maiores bençãos

É desumano, o curso desse eito
Inteira Terra às costas de um zangão
Tão mais arcano, ainda assim feito
Por quem tranquilo assovia canção

Cheio de graças, danações do amor
Abri os braço pra ter peito aberto
Aperto o laço, nó cego do abraço
Não se disfarça tamanho valor
Tão aceito igualmente incomum
Mesmo pleno soma a uma, dá um

Quando os dias eram bolas de gude

Corrida para se banhar no açude

Roubar jaca da vendinha

Ir à igreja, da mãe mandatório

Afronta dizer “deus é ilusório”

E ela assim perdia a linha

Emburrado certa vez na igreja

Escutou de fora uma peleja

Dos varões não batizados

Ignorou a presença do santo

Ao ver tornou-se como outros tantos

Candidato a namorado

Vinha formosa, linda e iluminada

Anunciavam a sua chegada

Cantadas e assovios

Era uma moça com tanta beleza

Jamais antes vista nas redondezas

Que se acendeu um brio

Tamanha era sua intenção

De ter pra si, dela, a atenção

Que também passou por tolo

Apenas quando mostrou-se educado

Tentou a conquista, o já conquistado

Pôs a mente no rebolo

Criou uma complexa poesia

E a entregaria em qualquer dia

Só lhe faltava coragem

Quando chegou a oportunidade

Vacilou e não disse a verdade

Agiu como outros agem

A reação então foi natural

Vendo o jovem gago passando mal

Achou tudo tão estranho

Se soubesse antes de perder o alinho

Ela já tinha por ele carinho

Afastaria o acanho

Se complicou em demorados planos

Rapidamente passaram os anos

Ele não fazia nada

Não há quem tenha tanta paciência

Ela não tinha qualquer dependência

De um outro foi namorada