Da confiança, da mentira e da verdade

Entre as menores na menor cidade
Trabalhava um único coveiro
Tão velho que já nem contava idade
Mas era ainda da morte o porteiro

Na pá viu o remo do barqueiro
Ali findou sua exclusividade
Não lhe acenderam nem o candeeiro
“quem no lugar?”, afligia o abade

Ninguém morria, nem ninguém lhe enterrava
Ficou branco e roxo, mas lá estava
Quem morresse, fosse pr’outro lugar

O corpo inchou, fedeu, mas lá estava
Nem por cristo, ninguém lhe enterrava
Nada nunca floresceu no lugar.

Talvez insano, adotei defeitos
Que nunca estiveram em minhas mãos
Sem medir danos, insisti no pleito
Grandes agruras, maiores bençãos

É desumano, o curso desse eito
Inteira Terra às costas de um zangão
Tão mais arcano, ainda assim feito
Por quem tranquilo assovia canção

Cheio de graças, danações do amor
Abri os braço pra ter peito aberto
Aperto o laço, nó cego do abraço
Não se disfarça tamanho valor
Tão aceito igualmente incomum
Mesmo pleno soma a uma, dá um

Quando os dias eram bolas de gude

Corrida para se banhar no açude

Roubar jaca da vendinha

Ir à igreja, da mãe mandatório

Afronta dizer “deus é ilusório”

E ela assim perdia a linha

Emburrado certa vez na igreja

Escutou de fora uma peleja

Dos varões não batizados

Ignorou a presença do santo

Ao ver tornou-se como outros tantos

Candidato a namorado

Vinha formosa, linda e iluminada

Anunciavam a sua chegada

Cantadas e assovios

Era uma moça com tanta beleza

Jamais antes vista nas redondezas

Que se acendeu um brio

Tamanha era sua intenção

De ter pra si, dela, a atenção

Que também passou por tolo

Apenas quando mostrou-se educado

Tentou a conquista, o já conquistado

Pôs a mente no rebolo

Criou uma complexa poesia

E a entregaria em qualquer dia

Só lhe faltava coragem

Quando chegou a oportunidade

Vacilou e não disse a verdade

Agiu como outros agem

A reação então foi natural

Vendo o jovem gago passando mal

Achou tudo tão estranho

Se soubesse antes de perder o alinho

Ela já tinha por ele carinho

Afastaria o acanho

Se complicou em demorados planos

Rapidamente passaram os anos

Ele não fazia nada

Não há quem tenha tanta paciência

Ela não tinha qualquer dependência

De um outro foi namorada

[TAG] 12 meses na estante

Essa semana fui indicado pelo Devaneadora de idéias a responder a Tag “12 meses na estante” (muito obrigado!), na verdade, também deveria responder a TAG do 50%, mas como estou lendo mais livros técnicos nesses últimos meses guardarei o direito de não respondê-la por ora (desculpas); outra coisa, optei pelos livros que já li, pois, se qualquer deles suscitar curiosidade de quem o veja listado, terei propriedade para comentar sobre; e seguem minhas respostas:

 

1 – Janeiro: O mês que inicia um novo ano – Um livro com uma citação que você goste

A menina sem qualidades – Juli Zeh
“E que tal se os bisnetos dos niilistas já tivessem saído há tempo das empoeiradas lojas de artigos religiosos que chamamos de nossas visões de mundo?”

2 – Fevereiro: Mês do Carnaval – Um livro com a capa mais colorida de sua estante

Como a geração sexo drogas e Rock’n’roll salvou hollywood – Peter Biskind

3 – Março: Dia internacional da Mulher – Um livro que tenha mulher como capa e como autora

Sonetos – Florbela Espanca

4 – Abril: Em Abril, águas mil – Encontre na sua estante o último livro que te fez chorar

[nunca chorei lendo…]

5 – Maio: Mês das mães – Um livro com enredo sobre família

Pic – Jack Kerouac

6 – Junho: Mês dos namorados – Um livro com romance de tirar o fôlego

Senhora – José de Alencar

7 – Julho: Mês do inverno – Um livro com a capa em tons frios

Marília de Dirceu – Tomás Antônio Gonzaga

8 – Agosto: Mês do desgosto – Um livro que você jamais leria de novo

[ainda não li nenhum livro que eu não leria novamente…]

9 – Setembro: Mês da primavera – Um livro cuja capa tenha flores ou pássaros

As flores do mal – Charles Baudelaire

10 – Outubro: O único mês do ano que inicia com e termina com a mesma letra – Encontre um livro cujo título inicie e termine com a mesma letra

Sagarana – Guimarães Rosa

11 – Novembro: O verão está chegando! – Um livro que tenha amarelo ou laranja na sua edição (pode ser capa ou lombada)

Tieta do agreste – Jorge Amado

12 – Dezembro: Mês do natal – Um livro que tenha verde ou vermelho em sua edição (pode ser capa ou lombada)

A casa dos budas ditoso – João Ubaldo Ribeiro

Vou indicar 5 blogs que eu tenho muita curiosidade de saber quais livros estão em suas estantes e quais foram lidos:

 

Thomas Prado (Cativoeiro)

Adriano Portela

O Ponto Afinal

Ler é um vício

Juca Melchior

De longe prometiam solução
Para problemas que nem eram nossos
Recusamos qualquer intervenção
Fizeram pouco dos nossos esforços

Abrimos as pernas pra invasão
Nos concediam apenas destroços
Qualquer dos nossos brados era vão
Tornou-se alegria estar nos fossos

Acostumamos após tantos anos
Que obsoletos tornaram-se os planos
Perdeu-se o senso do que é liberdade
Digo, adequou-se ao que se vê
Exultante aos olhos de quem crê
Pois prisão rima com felicidade